gestão de riscos no Recife
Existe uma versão em espanhol deste artigo aqui.
Entre 24 e 28 de maio de 2022, caiu sobre o Recife cerca de 65% de toda a chuva daquele mês. A capital pernambucana acumulou 686,4 milímetros, mais que o dobro da média histórica de 291 milímetros, segundo dados do Centro de Operações do Recife (COP). Deslizamentos e alagamentos deixaram mais de 120 mortos na Região Metropolitana, na maior tragédia do século no estado, e desalojaram e desabrigaram muitas famílias, sobretudo nos morros das zonas sul e oeste.
A tragédia expôs um risco que a cidade conhece há décadas. O Recife combina uma planície baixa, onde os alagamentos se agravam quando a chuva coincide com a maré alta, com morros densamente ocupados e sujeitos a deslizamentos. Segundo a Secretaria Executiva de Defesa Civil (SEDEC), cerca de 67,4% do território é formado por morros, onde vivem 35% das famílias. Mais de 206 mil pessoas moram em 21 áreas de risco alto ou muito alto.
Para reduzir esse risco, a Prefeitura do Recife atua em duas escalas. Nos bairros, a SEDEC faz ações porta a porta, forma moradores como agentes comunitários e constrói com eles obras de contenção por meio do Programa Parceria. Na gestão da cidade, o COP reúne 14 órgãos municipais que decidem com a mesma informação e sob o mesmo comando. As duas estruturas atuam com base no Plano de Contingência 2026 da Ação Inverno, a operação municipal para o período chuvoso.
Para esta matéria, o +COMUNIDAD entrevistou Anderson Soares de Freitas, secretário executivo do COP, vinculado à Secretaria de Ordem Pública e Segurança (SEOPS), e a equipe de Atenção Social da SEDEC: Maria Afra Nunes Guedes, gerente de Atenção Social; Erika Cristina Alcântara, gerente social do Programa Parceria; e Giselle Vieira, gerente geral de Atenção Social.
Uma Defesa Civil que se reinventou a cada tragédia
A Defesa Civil do Recife nasceu em 1986 como uma coordenadoria que funcionava nas dependências da Empresa de Urbanização do Recife (URB). No inverno, outros órgãos da Prefeitura cediam servidores para reforçar a equipe. A primeira mudança de fundo veio depois de 29 de abril de 1996, quando um deslizamento e o rompimento de uma tubulação de água no Córrego do Boleiro, no bairro de Nova Descoberta, causaram 12 mortes.
Em 2001, a Defesa Civil passou a funcionar de forma permanente. No mesmo ano, foi criado o Auxílio Moradia, benefício pago às famílias retiradas de casa por risco ou desastre até que sejam atendidas por um programa habitacional. Também foram instaladas seis regionais próximas aos bairros: cinco nos morros e uma na planície. Em 2008, um concurso público permitiu formar uma equipe técnica própria, com profissionais de arquitetura, engenharia, geologia, geografia, psicologia e serviço social. Segundo a SEDEC, foi o primeiro concurso da área no país. Em 2013, a coordenadoria foi transformada em secretaria executiva.
A equipe de Atenção Social da SEDEC explicou ao +COMUNIDAD que, ao longo dessas mudanças, o órgão manteve como premissas “a proximidade com os territórios, a descentralização das ações e o trabalho permanente junto às comunidades”.
Obras de contenção feitas com os moradores
O Programa Parceria é a peça mais visível desse trabalho territorial. Criado em 2001, passou em 2014 a integrar as atividades da SEDEC. Executa obras de pequeno e médio porte nos morros e na planície. Para tratar encostas, usa rip rap, alvenaria armada e tela argamassada. Também faz drenagem, melhoria de acesso, relocação de fossa séptica e melhoria habitacional em moradias danificadas ou em situação de risco. O programa não contempla instalações hidráulicas e elétricas.
O programa funciona por corresponsabilidade. A SEDEC elabora o projeto, explica a metodologia às famílias e pactua com elas as responsabilidades. Depois, fornece os materiais e acompanha a obra com equipes de engenharia e de serviço social até a conclusão. As famílias entram com a mão de obra, que pode ser familiar, contratada ou mista. “A execução das obras é feita pela população com o apoio técnico da SEDEC/Recife”, resume a equipe da qual faz parte Erika Cristina Alcântara, gerente social do programa. Os pedidos chegam dos próprios moradores, de lideranças comunitárias ou do monitoramento da Defesa Civil.
Em 2026, até o fim de setembro, o Parceria concluiu 733 obras, que beneficiaram 967 famílias, segundo a SEDEC. O balanço acumulado mais recente, publicado no Diário Oficial do Recife em março de 2026, soma 5.175 obras desde 2021 e 11.071 famílias beneficiadas. Em 2022, o programa recebeu o Pergaminho de Honra do ONU-Habitat.
A principal dificuldade é logística. Em encostas íngremes, com acessos estreitos ou inexistentes, é difícil levar veículos, equipamentos e materiais até cada obra.

Voltar para casa e aprender um ofício
A equipe de Atenção Social destaca dois efeitos que vão além da contenção. Famílias que tinham deixado suas casas por causa de deslizamentos e recebiam o Auxílio Moradia puderam voltar depois do tratamento da encosta e da melhoria habitacional. Além disso, moradores que participaram da obra na própria casa, sem experiência prévia em construção civil, passaram a ser contratados para outros serviços na comunidade.
Para a SEDEC, essas experiências mostram “a valorização dos saberes locais, o desenvolvimento de novas habilidades e a geração de oportunidades de trabalho e renda nos territórios”.
Moradores preparados para dar o primeiro aviso
A segunda peça territorial são os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs). Eles formam moradores como agentes de prevenção em quatro modalidades: Comunitária, Escolar, Mulheres e NUPDECquinho, voltado às crianças.
A formação tem 32 horas, em oficinas semanais de quatro horas, sobre mudança climática, perspectiva de gênero nos desastres, suporte psicológico, primeiros socorros, evacuação de área e racismo ambiental, entre outros temas. Para receber o certificado, cada turma faz um exercício simulado em uma área de risco da cidade. A certificação é da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), como curso de extensão. Em 2026, foram formados 72 agentes em quatro núcleos, nas regionais Norte, Plana, Sul e Oeste.
No inverno, os agentes monitoram suas áreas, avisam imediatamente as equipes técnicas sobre qualquer situação de risco e mantêm grupos de comunicação com a vizinhança para divulgar alertas, estágios operacionais e abrigos ativados. Falam diariamente com suas regionais pelo WhatsApp oficial dos voluntários. Hoje, também participam da revisão do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), com voz ativa nas decisões para o próximo ciclo de gestão.

Um centro de operações para decidir com as mesmas regras
A outra escala é a coordenação da cidade. Em entrevista ao +COMUNIDAD, Anderson Soares de Freitas, secretário executivo do COP, conta que a ideia de um centro integrado já estava na agenda da gestão. “2022 mostrou que ela não podia esperar”, afirma.
Até então, a resposta era fragmentada. Cada órgão monitorava e agia por conta própria, a comunicação entre as áreas era falha, os processos eram manuais e não havia monitoramento contínuo nem indicadores para avaliar o desempenho. O COP foi criado formalmente em 2023.
Hoje, 14 órgãos compartilham a mesma informação e decidem a partir do mesmo comando. Entre eles estão a Defesa Civil, o SAMU, a Emlurb, a CTTU e a Secretaria de Saúde. A cidade opera com cinco estágios operacionais padronizados: Normalidade, Mobilização, Atenção, Alerta e Alerta Máximo. Cada um diz, ao mesmo tempo, o que cada órgão deve fazer e o que a população deve esperar. Em 2026, o COP ganhou uma nova sede, com Sala de Operações funcionando 24 horas, Sala de Crise e Sala de Planejamento.

Quem decide o quê quando chove
A divisão de papéis parte de uma diferença de natureza. O COP é uma instância de coordenação. A Defesa Civil é um órgão técnico com competência legal própria, definida pela Lei nº 12.608/2012, e atua diretamente nas áreas de risco. “O COP enxerga a cidade inteira e decide em nível de gestão, enquanto a Defesa Civil vai ao território e decide tecnicamente sobre o risco de cada situação”, resume Soares de Freitas.
Antes da chuva, a meteorologia municipal acompanha chuva, maré e vento, em articulação com a APAC, o Inmet e o Cemaden, e traduz esses dados em impactos esperados para a cidade. Com essa leitura, o COP define o estágio operacional e convoca os órgãos para posicionar equipes e recursos antes que as ocorrências apareçam. A SEDEC, por sua vez, faz vistorias e ações porta a porta, coloca lonas plásticas e aplica geomantas nas encostas.
Durante o evento, o COP pode abrir abrigos, suspender as aulas na rede municipal ou orientar que serviços não essenciais funcionem de forma remota. A Defesa Civil atende chamados 24 horas, faz vistorias, interdita imóveis e orienta ou retira famílias das áreas de risco. Depois, o COP coordena a recuperação da cidade e consolida os dados do evento, enquanto a SEDEC avalia os danos, decide sobre interdições e desinterdições e encaminha os casos de interdição definitiva para o Auxílio Moradia.



Alertas em três camadas
Os avisos chegam à população por três vias complementares. A primeira é meteorológica: órgãos estaduais e federais emitem avisos de chuva forte por região. A segunda é a decisão do município. O COP comunica o estágio da cidade pelo aplicativo Conecta Recife, WhatsApp, SMS, Telegram, redes sociais da Prefeitura, site da Ação Inverno e imprensa local. No Alerta Máximo, por exemplo, ficam suspensos os serviços não essenciais e as atividades culturais e esportivas.
A terceira camada é o alerta direto a quem está em risco, atribuição da Defesa Civil. Funciona pelo SMS 40199, em que o morador se cadastra informando o CEP, e pelo cell broadcast (Defesa Civil Alerta). Nesse sistema, todo celular 4G ou 5G na área de risco recebe o aviso em tela sobreposta e com alerta sonoro, sem necessidade de cadastro. “Na prática, a divisão é esta: a meteorologia diz como vai chover, o COP decide como a cidade vai funcionar e a Defesa Civil avisa quem está em risco e o que deve fazer”, sintetiza Soares de Freitas.

Agir no primeiro sinal
Segundo Soares de Freitas, a principal ferramenta do COP é a Matriz de Gatilhos, alimentada pelo Observatório de Inteligência Urbana. São critérios objetivos que, a partir de dados integrados de vários órgãos, definem quando e como o centro atua. A sala de operações reúne em um único painel de telas o videomonitoramento da cidade, os radares da CTTU e as informações do SAMU, da Emlurb e da Defesa Civil, e uma central de drones monitora as áreas afetadas. Cada ocorrência passa por quatro confirmações (Acionado, Presente, Em atuação e Finalizado), o que mostra se a equipe chegou e se concluiu o atendimento. No Painel do COP, qualquer pessoa acompanha em tempo real pluviômetros, trânsito, alagamentos, abrigos e marés.
O centro também atua fora do período chuvoso, em grandes eventos como o Carnaval e o Réveillon e em problemas recorrentes da cidade. O próximo passo é medir a operação de forma sistemática, com um painel de indicadores em implantação sobre o tempo médio de resposta das equipes e o tempo para liberar vias e restabelecer serviços essenciais. Nas palavras de Soares de Freitas, “o COP passou de uma estrutura de resposta para uma estrutura de gestão da cidade, que observa, decide, age e aprende”.
O que ainda é difícil
A escala do problema continua grande. Com mais de 206 mil pessoas em áreas de risco alto ou muito alto, a fiscalização, o monitoramento preventivo e qualquer desocupação em larga escala são, segundo a SEDEC, um desafio logístico.
A equipe de Atenção Social reconhece que, mesmo com notificações, vistorias, força administrativa ou decisões judiciais, “parte dos moradores reluta em deixar suas residências, seja por pertencimento ao local, medo de perder bens ou demora/insuficiência no recebimento de auxílio-moradia”. Depois de cada chuva intensa, a alta demanda por abrigos, lonas, cadastro de famílias atingidas e ajuda humanitária gera gargalos no tempo de resposta.
Ainda não há uma avaliação de impacto. As respostas da Prefeitura não trouxeram registros de como as áreas com obras do Parceria ou com agentes NUPDEC se comportaram nos últimos invernos. Os dados disponíveis medem o que foi feito (obras, famílias atendidas, agentes formados) mais do que o risco evitado. O painel de indicadores do COP e o registro de cada ocorrência são o ponto de partida para começar a medi-lo.
O que outra cidade precisa
COP e SEDEC concordam que o ponto de partida é a governança. “O principal aprendizado é que a tecnologia vem depois da governança”, afirma Soares de Freitas. Um centro de operações só funciona quando os órgãos aceitam decidir juntos e cada um sabe qual é o seu papel, e isso pode começar com uma estrutura física simples. “Telas e sistemas ampliam a capacidade de uma coordenação que já existe, mas não a substituem”, acrescenta.
Para municípios com menos recursos, as duas equipes recomendam:
- Definir as regras antes da crise. Estágios operacionais e critérios objetivos de acionamento reduzem o improviso. “Quando a chuva chega, a decisão já está desenhada, e o que resta é executá-la”, diz Soares de Freitas.
- Usar dados públicos e gratuitos. Como os do Cemaden, dos institutos estaduais de meteorologia e das plataformas abertas de trânsito. O valor está em integrá-los e interpretá-los com conhecimento do território.
- Falar com uma só voz. Uma orientação única, clara e amplamente difundida, inclusive pela imprensa local, funciona melhor do que vários alertas desencontrados.
- Registrar cada ocorrência desde o primeiro dia. É esse histórico que permite aprender e, mais tarde, antecipar.
- Fortalecer a Defesa Civil municipal. Com leis e decretos que estruturem as ações, orçamento próprio, equipe técnica concursada e diagnósticos participativos. A SEDEC atribui a essas condições sua capacidade de atuar o ano todo.
- Começar com um projeto-piloto. “Mesmo em municípios com menor disponibilidade de recursos financeiros e operacionais, considera-se viável replicar a experiência do Programa Parceria”, afirma a equipe da SEDEC. A sugestão é escolher um território prioritário pelo grau de risco, com equipe técnica mínima, tipos de intervenção definidos previamente e espaços comunitários já existentes, como associações de moradores, igrejas e escolas. Os NUPDECs podem começar da mesma forma, com profissionais de saúde, educação e assistência social à frente das oficinas.
Antes da próxima chuva
A experiência do Recife junta duas escalas que costumam andar separadas: o muro que uma família levanta na própria encosta e a decisão que 14 órgãos tomam na mesma sala. Nenhuma das duas elimina o risco de uma cidade construída entre o mar e os morros. Juntas, buscam que, quando voltar a chover como em maio de 2022, a resposta já esteja combinada.
Nota metodológica: Anderson Soares de Freitas, secretário executivo do Centro de Operações do Recife (COP), e a equipe de Atenção Social da Secretaria Executiva de Defesa Civil (SEDEC), formada por Maria Afra Nunes Guedes, Erika Cristina Alcântara e Giselle Vieira, responderam por escrito às perguntas do +COMUNIDAD em outubro de 2026. Os dados acumulados do Programa Parceria são do Diário Oficial do Recife (3 de março de 2026).
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Redação +COMUNIDAD
