IDEIAS & INSPIRAÇÃO
Alerta Rio, o sistema que antecipa os deslizamentos nas encostas do Rio de Janeiro

Nas encostas do Rio de Janeiro, uma chuva forte pode provocar deslizamentos em poucas horas. Desde 2011, a cidade combina a previsão do sistema Alerta Rio com sirenes em 103 comunidades de alto risco, que indicam quando os moradores devem seguir para pontos de apoio. Em fevereiro de 2026, o mês mais chuvoso em quase 30 anos, as sirenes tocaram várias vezes. O desafio agora é levar o alerta a mais bairros, enquanto a cidade se prepara para um El Niño forte.

Existe uma versão em espanhol deste artigo aqui.

O Rio de Janeiro cresceu sobre montanhas. Muitas de suas favelas ocupam encostas onde o solo encharcado pela chuva pode ceder em minutos. O projeto Rio 60ºC, da organização Ambiental Media e da Universidade Federal Fluminense (UFF), estimou em abril de 2025 que cerca de 599 mil domicílios da cidade estão em alto risco de desastre. Cerca de 60 mil estão sujeitos a deslizamentos.

A resposta municipal combina duas peças. A primeira é o Alerta Rio, sistema de previsão de chuvas intensas e deslizamentos criado em 1996 pela Fundação Instituto de Geotécnica do Município (Geo-Rio). A segunda é o Sistema de Alerta e Alarme Comunitário, uma rede de sirenes que a Defesa Civil municipal aciona quando a chuva ultrapassa limites definidos para cada comunidade. As duas operam no Centro de Operações e Resiliência (COR), a sala de onde a Prefeitura coordena a resposta a emergências.

Em outubro de 2025, o +COMUNIDAD publicou como o Rio usa dados para coordenar sua resposta urbana por meio do COR e do programa Territórios Sociais (leia a matéria, em espanhol). Esta matéria se concentra em uma peça dessa engrenagem, o alerta precoce de deslizamentos. Ela se baseia em documentos oficiais, relatórios técnicos e reportagens disponíveis até 25 de outubro de 2026.

Uma resposta que nasceu de uma tragédia

A gestão de risco nas encostas do Rio tem data de origem. Em janeiro de 1966, um temporal deixou a cidade em estado de calamidade. Em 12 de maio daquele ano, um decreto do então Estado da Guanabara criou o Instituto de Geotécnica, hoje Fundação Geo-Rio, para vistoriar encostas e executar obras de contenção.

Em 19 de fevereiro de 1967, a chuva provocou o deslizamento de uma pedra no bairro de Laranjeiras. O bloco derrubou dois edifícios e soterrou mais de cem pessoas. Os desastres daqueles dias deixaram quase 200 mortos, segundo o histórico divulgado nos 60 anos da Geo-Rio.

O monitoramento chegou três décadas depois. Em 1996, a Geo-Rio implantou o Alerta Rio, uma rede de estações pluviométricas que transmitem dados a cada 15 minutos. Em 2010, após novas chuvas com dezenas de mortos na cidade, a Prefeitura criou o COR, e a Geo-Rio mapeou o risco geotécnico de todas as comunidades. O mapeamento identificou 117 comunidades com alto risco de deslizamento.

A peça que faltava chegou em janeiro de 2011. No Morro do Borel, a Prefeitura apresentou a primeira sirene de um sistema pensado para avisar os moradores sobre o momento de deixar suas casas. A rede chegou a 103 comunidades. Segundo a Prefeitura, elas se concentram nas zonas Norte e Sul, apontadas pelo mapeamento como as de maior risco geológico.

Centro de Operações e Resiliência do Rio de Janeiro. Foto: COR Rio.

Do pluviômetro à sirene

A cadeia começa nos pluviômetros. Os equipamentos ligados às sirenes enviam medições automáticas a cada 15 minutos, segundo informou a Geo-Rio ao Tribunal de Contas do Município (TCM). O COR soma dois radares meteorológicos próprios. O do Sumaré funciona desde 2010, e o do Mendanha, na Zona Oeste, desde 2024. O centro também integra imagens de satélite.

Com esses dados, os meteorologistas do Alerta Rio fazem a previsão da chuva e estimam a probabilidade de escorregamentos em quatro níveis, de baixa a muito alta. Os critérios técnicos, definidos em 2012, consideram a chuva acumulada em 1, 24 e 96 horas.

A Defesa Civil aciona as sirenes depois que os meteorologistas do Alerta Rio avaliam os índices críticos de chuva. As duas equipes trabalham juntas no COR. Segundo o centro de operações, em algumas comunidades as sirenes tocam quando a chuva atinge entre 40 e 55 mm por hora. Acima de 55 mm, o acionamento é feito diretamente do COR. O acumulado também conta. Em abril de 2025, a Defesa Civil acionou sirenes no Borel e no Andaraí por causa da chuva de 24 horas, com o solo encharcado.

Cada ator tem um papel definido. A Geo-Rio mapeia o risco, executa obras de contenção e fiscaliza os contratos do Alerta Rio e das sirenes. A Defesa Civil aciona o alarme e acompanha a desocupação. O COR define o estágio operacional da cidade, uma escala de 1 a 5 em vigor desde um decreto de novembro de 2023.

O alerta nas comunidades

O alerta chega por vários caminhos. A Defesa Civil envia mensagens por SMS e WhatsApp a quem se cadastra. Desde janeiro de 2025, usa também o cell broadcast, tecnologia da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) que alcança todos os celulares de uma área sem cadastro prévio. Em 29 de janeiro de 2025, a cidade recebeu pela primeira vez um alerta extremo por esse canal.

Nas comunidades atendidas, as sirenes têm duas funções. Primeiro, emitem um aviso de aproximação de chuva forte. Se a chuva atinge os limites, toca a ordem de desocupação. Os moradores seguem então para pontos de apoio definidos com antecedência. Segundo a apresentação da Prefeitura de julho de 2026, a cidade conta com 225 pontos de apoio e 165 sirenes em 103 comunidades.

Segundo a Prefeitura, um cadastro atualizado de idosos e pessoas com deficiência permite que a Defesa Civil as apoie quando a sirene toca. Cada comunidade conta, ainda, com lideranças treinadas.

A preparação se completa com simulados de desocupação, nos quais os moradores percorrem as rotas até os pontos de apoio. Os números públicos sobre esses exercícios não coincidem. Um balanço de abril de 2023 contava 52 simulados desde 2011. A apresentação de julho de 2026 menciona 869 desde 2014.

Simulado. Imagem: Defesa Civil Municipal.

O que mudou e o que não mudou

Nos últimos anos, o sistema ganhou camadas tecnológicas. Em 2024, foi instalado o segundo radar, no Morro do Mendanha. Em 2025, chegou o cell broadcast como canal de massa. Em novembro de 2023, a Prefeitura substituiu os nomes dos estágios operacionais por números de 1 a 5, com cores alinhadas às do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Uma pesquisa havia mostrado que a população não compreendia a escala anterior.

A inteligência artificial está em fase de testes. O consórcio Rionowcast, formado pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), pelo CEFET-RJ, pela UFF e pelo COR, desenvolve modelos para antecipar chuvas extremas. Em 2026, pesquisadores da UFF apresentaram um modelo que exige menos energia e menor capacidade computacional. A próxima etapa é testá-lo com dados em tempo real nos sistemas do COR e do Alerta Rio.

O COR também cresceu. A matéria do +COMUNIDAD de 2025 falava em mais de 30 órgãos. Em julho de 2026, a Prefeitura informou mais de 50 órgãos integrados e 50 protocolos operacionais.

A cobertura das sirenes se manteve estável. Os registros públicos mencionam 103 comunidades desde pelo menos 2020, com entre 162 e 165 equipamentos, conforme o ano. Para o projeto Rio 60ºC, a rede não ganhou novas comunidades desde o lançamento. “Nunca mais instalaram sirenes”, afirmou em abril de 2025 seu coordenador, Miguel Vilela.

Novo radar meteorológico do Sumaré ou do Mendanha. Imagem: COR Río.

Fevereiro de 2026, um teste de estresse

A última temporada de chuvas pôs o sistema sob pressão. Fevereiro de 2026 foi o mais chuvoso desde 1997, quando começou a série histórica do Alerta Rio. Até o dia 27, a média das estações marcou 354 mm, o triplo da média histórica do mês (118,3 mm). Um ano antes, fevereiro de 2025 tinha sido um dos mais secos da série, com 0,6 mm. A Prefeitura contabilizou 1.292 atendimentos relacionados aos temporais durante o mês.

Os registros públicos mostram acionamentos frequentes. Em 28 de novembro de 2025, a Defesa Civil acionou 11 sirenes em sete comunidades após chuvas acima de 50 mm em uma hora. Em 4 de janeiro de 2026, três sirenes tocaram na comunidade da Formiga e foram silenciadas uma hora e quinze minutos depois. Em 9 de fevereiro, com a cidade no Estágio 3, tocaram 15 sirenes em nove comunidades.

A cadeia é acionada com regularidade. Seu efeito é mais difícil de medir. As fontes públicas consultadas não informam quantas pessoas chegaram aos pontos de apoio, com quanta antecedência receberam o aviso nem quantos deslizamentos ocorreram nas áreas atendidas. O indicador oficial mais recente encontrado pelo +COMUNIDAD é de fevereiro de 2023. Segundo a Defesa Civil, desde a instalação das sirenes foram registradas quatro mortes por deslizamentos nas áreas monitoradas.

O que ainda falta

O principal limite é a cobertura. Em 2022, o TCM identificou cerca de 400 comunidades sem sirenes nem estudos de risco geológico-geotécnico, a maioria em torno do maciço da Pedra Branca, na Zona Oeste. O tribunal determinou que a Geo-Rio concluísse o mapeamento de risco em um ano e ampliasse o sistema de alarme. O +COMUNIDAD não encontrou informações públicas sobre o cumprimento dessa determinação.

A Prefeitura sustenta que as comunidades da Zona Oeste têm características geológicas distintas das localizadas junto aos maciços das zonas Sul e Norte. Entre os censos de 2010 e 2022, os bairros da Zona Oeste lideraram o crescimento populacional da cidade.

O segundo limite está na previsão. Em 29 de julho de 2026, um vendaval com rajadas de até 92 km/h atingiu a capital. A Prefeitura foi cobrada por não ter alertado a tempo. O prefeito Eduardo Cavaliere reconheceu que os ventos superaram a previsão da gestão municipal. O episódio não envolveu deslizamentos, mas mostrou que o alerta depende da qualidade da previsão.

Continuidade entre gestões

O sistema atravessou cinco mandatos municipais e três prefeitos. Nasceu com Eduardo Paes em 2011, seguiu com Marcelo Crivella entre 2017 e 2020 e voltou a Paes. Desde março de 2026, é administrado por Eduardo Cavaliere, que assumiu após a renúncia de Paes. Em março de 2020, durante a pandemia, as sirenes das 103 comunidades transmitiram mensagens para que os moradores evitassem sair de casa.

A continuidade tem base institucional. A Geo-Rio existe desde 1966, o Alerta Rio desde 1996 e o COR desde 2010. Os estágios operacionais e a governança das emergências estão fixados em decreto. A Defesa Civil publica planos de contingência, como o da temporada 2025-2026, com o protocolo de acionamento das sirenes.

Os recursos específicos do sistema de alerta não aparecem discriminados nas fontes consultadas. Há, sim, números de investimento em redução de risco. A Geo-Rio informou R$ 460 milhões em mais de 300 obras de contenção desde 2021, com recursos municipais e federais. O PAC Encostas destina R$ 258 milhões para conter encostas e proteger 60 mil pessoas. Em 2026, a Secretaria de Conservação dobrou o investimento em drenagem, para R$ 70 milhões.

Em julho de 2026, diante de uma probabilidade de 81% de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro, Cavaliere apresentou o plano de resposta da cidade. “Não conseguimos impedir que o El Niño tenha efeitos sobre o clima do Rio”, afirmou, citado pelo jornal Correio da Manhã.

O que outra cidade precisa

Segundo a Prefeitura, diversas cidades brasileiras adotaram o modelo, e a Geo-Rio presta consultoria a outros municípios. As fontes consultadas permitem identificar cinco condições para replicá-lo:

  • Um mapa de risco antes da tecnologia. As sirenes do Rio foram instaladas com base no mapeamento de 2010. Onde não há mapeamento, como apontou o TCM, também não há alarme.
  • Limites próprios para cada comunidade. Os índices de chuva que acionam o alarme variam conforme o terreno e são calibrados com o registro de deslizamentos.
  • Um lugar onde o dado vira decisão. No Rio, meteorologistas e Defesa Civil dividem a sala do COR.
  • Pontos de apoio e moradores preparados. A sirene funciona quando cada família sabe para onde ir. Os simulados e as lideranças comunitárias cumprem essa função.
  • Vários canais ao mesmo tempo. Sirenes, SMS, WhatsApp e cell broadcast chegam a públicos diferentes.

Para municípios sem rede de sensores, a pesquisadora Mariza Ferro, da UFF, propôs em 2025 começar com ferramentas simples, como pluviômetros de garrafa PET e treinamento dos moradores. O objetivo é que as comunidades usem os dados de risco sem depender apenas do poder público. No Brasil, além disso, o cell broadcast opera em escala nacional e está disponível para as defesas civis locais.

O próximo passo

Quinze anos após a primeira sirene, o Rio de Janeiro tem uma cadeia de alerta acionada com regularidade em 103 comunidades. A tarefa agora é levar o mapeamento e o alarme aos bairros que cresceram depois de 2010, para que o sistema acompanhe a cidade diante de chuvas mais intensas.

Nota metodológica: esta matéria se relaciona com a publicada pelo +COMUNIDAD em 14 de outubro de 2025, “Datos que salvan vidas: la estrategia de Río de Janeiro para responder y cuidar mejor“, sobre o COR e o programa Territórios Sociais. Em outubro de 2026, o +COMUNIDAD solicitou entrevistas à Geo-Rio e ao COR, sem resposta até a data de fechamento, 26 de outubro de 2026. As fontes consultadas foram comunicados e documentos da Prefeitura do Rio, do COR e da Geo-Rio, o Diário Oficial do Município, relatórios do Tribunal de Contas do Município citados pela imprensa, o projeto Rio 60ºC, o consórcio Rionowcast e reportagens da Agência Brasil, CNN Brasil, Climatempo, Poder360, CartaCapital, Correio da Manhã, Folhapress, Jornal do Brasil e Tempo Real RJ.
Esta matéria faz parte do Boletim Ideias & Inspiração da Rede de Inovação Local (RIL), que destaca todos os meses casos inovadores de diferentes temas em cidades de todo o mundo. Quer receber, uma vez por mês, soluções locais como as desta matéria no seu e-mail? Inscreva-se gratuitamente!

Imagem de capa: Ilustração +COMUNIDAD

Redação +COMUNIDAD