Florianópolis
A gestão turística nas cidades depende, em grande medida, da capacidade de produzir e analisar informações. Contar com dados oportunos permite melhorar a experiência no território e responder com maior precisão a demandas e imprevistos. Na América Latina, cada vez mais destinos incorporam ferramentas tecnológicas para monitorar a atividade, antecipar cenários e ajustar serviços em tempo real.
Em Florianópolis (Santa Catarina, Brasil), esse processo partiu de uma pergunta concreta: como transformar a informação dispersa em uma ferramenta de planejamento? O desafio combinava a incorporação de tecnologia com a integração de dados em diversas áreas municipais, de modo que segurança, saúde, mobilidade e promoção turística trabalhassem sobre uma mesma base de evidências.
A cidade começou a consolidar essa cultura a partir de seus cincoCentros de Atendimento ao Turista (CATs). Neles, foram implementados mecanismos analógicos e digitais para levantar o perfil de quem visita a ilha, sua origem, motivações e tempos de permanência. Esse primeiro nível de sistematização abriu as portas para uma etapa posterior: escalar a análise e cruzá-la com variáveis críticas como balneabilidade, fluxo aéreo e capacidade de resposta dos serviços públicos.
Para compreender como se consolidou essa estratégia baseada em cultura de dados, +COMUNIDAD conversou com Ana Paula Reusing Pacheco, da Subsecretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação de Florianópolis; Renê Ernesto Meneses Nunes, subsecretário de Turismo; e Patrícia Mattos de Barros Schiavoni, diretora de Planejamento e Desenvolvimento Turístico.
Um ecossistema de monitoramento inteligente
A Prefeitura de Florianópolis implementou um sistema deInteligência Artificial (IA) e Internet das Coisas (IoT) por meio da plataformaSmart Tour, que permite monitorar as atrações da ilha, rastrear o fluxo de visitantes e os padrões de visitas em tempo real. Ana Paula Reusing Pacheco explica que, para institucionalizar esse processo, em novembro de 2025 foi inaugurado o Centro de Inteligência Turística (CIT), fruto de uma parceria entre o município e oInstituto Federal de Santa Catarina (IFSC).
“Este Centro é responsável por alimentar o ecossistema municipal com dados técnicos sobre segurança pública, balneabilidade e fluxo em unidades de saúde, garantindo que a tomada de decisões públicas se baseie em evidências concretas”, acrescenta a funcionária.
Nesse contexto, o CIT sistematiza e disponibiliza informações vinculadas a:
- Fluxo aéreo e sazonalidade.
- Perfil do turista de verão.
- Panorama do calendário de eventos.
- Relação entre turismo e resíduos sólidos urbanos.
- Mapeamento e análise de atrativos turísticos.
- Mapeamento e capacidade de espaços para eventos.
- Impactos do turismo nas condições de vida e moradia.
- Ciclomobilidade como alternativa para a mobilidade urbana e turística.
- Reputação on-line dos principais atrativos.


IA aplicada: itinerários preditivos e segurança urbana
A estratégia de Florianópolis organiza o uso da inteligência artificial em dois níveis vinculados à gestão pública e à experiência do visitante.
O primeiro orienta-se a quem percorre a cidade. O novo Portal de Turismo incorpora o chatbot “Estimada”, que processa o perfil de cada usuário e o cruza com dados de infraestrutura e contexto. A partir dessa análise, sugere itinerários preditivos e recomenda locais com menor nível de congestionamento, considerando variáveis como o clima e a ocupação dos espaços. Desse modo, contribui para distribuir melhor os fluxos no território.
O segundo nível foca na segurança urbana. No Living Lab 5G, localizado no Centro-Leste, o sistema Icetana AI utiliza algoritmos baseados em detecção de anomalias. A ferramenta aprende os padrões habituais de movimento e detecta em tempo real comportamentos incomuns, como aglomerações inesperadas ou deslocamentos suspeitos. Esta automação permite que os operadores concentrem sua atenção em situações que exigem intervenção humana e melhora a precisão do monitoramento.
A integração dessas soluções respalda decisões operativas com maior sustentação técnica:
- Ajuste de serviços e promoção baseada em evidências: A análise de dados aeroportuários permitiu detectar uma mudança significativa no perfil do visitante: o turismo internacional passou de 1,5% em 2021 para cerca de 20% em 2024. Essa descoberta acionou decisões imediatas. O município reforçou o atendimento bilíngue nos Centros de Atendimento ao Turista (CATs) e priorizou o mercado europeu após a abertura da rota direta de Lisboa. A informação também orientou ações de promoção e capacitação específicas para atender melhor a esse novo perfil internacional.
- Eficiência na promoção: A análise de informações permitiu identificar mercados emissores prioritários e orientar ações de treinamento específicas.
- Agilidade na gestão de demandas: Por meio da plataforma Colab, residentes e turistas reportam problemas urbanos de maneira direta, o que acelera a resposta do governo local.

Perfil da Estimada no WhatsApp. Foto: Prefeitura de Florianópolis
Articulação para fortalecer a inovação e o turismo
A integração entre tecnologia, dados e gestão turística apoia-se em um esquema de articulação institucional. Consultada sobre esse processo, Reusing Pacheco explica: “Atua na convergência estratégica entre ambos os pilares, consolidando Florianópolis como um hub de inovação aplicada”. E completa: “Esta articulação se materializa por meio do Programa de Incentivo à Inovação (PII), desenvolvido desde 2018, que funciona como motor para soluções tecnológicas voltadas aos desafios da cidade”.
O enfoque também se reflete no Plano Estratégico de Turismo. Nele, a inovação e o acompanhamento de GovTechs são incorporados como ferramentas para monitorar fluxos em tempo real, promover ativos naturais em ambientes digitais e reduzir a sazonalidade. Ao mesmo tempo, fortalece-se o turismo de negócios e eventos mediante infraestrutura tecnológica específica. Renê Ernesto Meneses Nunes e Patrícia Mattos de Barros Schiavoni sinalizam que a coordenação entre subsecretarias se aprofundou após a adesão de Florianópolis àRede Brasileira de Destinos Turísticos Inteligentes (Rede DTI) do Ministério do Turismo.
Quanto ao vínculo com startups locais como a Smart Tour, Reusing Pacheco sustenta que o município assume o papel de “orquestrador do ecossistema” por meio de instrumentos de governança e financiamento. “Como presidente do Conselho Municipal de Inovação (CMI), lidera a destinação de recursos do Fundo Municipal de Inovação (FMI) para projetos como o Living Lab, que permite às startups testar e validar tecnologias em ambientes reais”, exemplifica.

Instrumentos para impulsionar soluções inovadoras
A relação com as startups apoia-se em mecanismos específicos de incentivo e contratação. Por meio do Programa de Incentivo à Inovação (PII), o município destina recursos provenientes de incentivos fiscais a projetos setoriais vinculados aos desafios locais.
O uso do Contrato Público de Soluções Inovadoras (CPSI) reforça esse esquema ao posicionar a instituição como “primeiro cliente” das GovTechs locais. Esta ferramenta habilita a contratação direta de desenvolvimentos tecnológicos e facilita sua validação em ambientes reais, reduzindo as limitações dos processos tradicionais de licitação.
Sobre as decisões públicas que se apoiaram no uso de dados, IA ou tecnologias digitais no âmbito do turismo, Meneses Nunes e Mattos de Barros Schiavoni explicam que, no âmbito operacional, utilizam as informações coletadas dos CATs. “Por meio de formulários acessíveis via QR Codes em três idiomas (português, inglês e espanhol), para compreender o perfil, origem, tempo de permanência e motivação da viagem. Esses dados nos ajudam a ajustar os horários de atendimento, reforçar as equipes em períodos de maior afluência e orientar melhor nossa comunicação”, acrescentam.
No âmbito estratégico, os dados consolidados orientam decisões como a priorização de mercados emissores, a definição de campanhas promocionais, a estruturação de novos produtos turísticos e o planejamento de eventos para reduzir a sazonalidade.
Um exemplo concreto foi a identificação do aumento do público europeu após a consolidação da rota direta da TAP Air Portugal, que conecta Lisboa a Florianópolis. A partir desses dados, intensificaram-se as ações de promoção, capacitação e relações para atender melhor a esse perfil internacional.

Flyers y tarjetas turísticas de la ciudad. Imagen: Prefeitura de Florianópolis.
Desafios, aprendizados e transferibilidade do modelo
Em Florianópolis, a transformação digital estruturou-se como um processo centrado no método e na governança. Os gestores do setor identificam como principal desafio a passagem de “grandes volumes de dados” para “decisões ágeis”. Este processo exige integrar bases de dados, padronizar indicadores e contar com capacidade técnica para análise contínua. Também exige consolidar uma cultura organizacional voltada ao uso sistemático de informações.
Entre os aprendizados destacados pela equipe, ressalta-se que “a tecnologia deve ser um meio para melhorar a qualidade de vida; por isso, a cidade aposta em uma gestão 100% digital e na desburocratização”. Na mesma linha, Ana Paula Reusing Pacheco sustenta que “a transformação começa pela governança e pelo planejamento, não pela tecnologia de forma isolada”.
Renê Ernesto Meneses Nunes e Patrícia Mattos de Barros Schiavoni enumeram três aspectos centrais do processo:
- A adesão à Rede DTI trouxe método, diagnóstico e plano de ação.
- A criação de uma Central de Inteligência permitiu organizar e hierarquizar os dados.
- A articulação com a academia, o setor privado e diferentes áreas da administração pública alinhou a inovação com as prioridades da política pública.
Para cidades que dispõem de infraestrutura tecnológica, mas ainda enfrentam dificuldades para converter informação em decisões, os especialistas sublinham a importância da governança e do método. “O passo fundamental é a integração dos dados nos instrumentos de planejamento. Quando a informação se torna a referência para o orçamento e as metas, a hierarquização ocorre naturalmente em função do que gera mais valor para o cidadão e para o turista”, explicam.
Também sinalizam que a definição prévia das decisões estratégicas que devem ser orientadas por dados evita a dispersão de informações. “A tecnologia é apenas um instrumento; o diferencial reside na capacidade institucional de utilizá-la de forma integrada”, concluem.
Esta nota faz parte do Boletim Ideias & Inspiração da Rede de Inovação Local (RIL), onde mensalmente destacam-se casos inovadores de diferentes temáticas em cidades de todo o mundo. Gostaria de receber soluções locais como as desta nota em seu e-mail? Você pode se inscrever gratuitamente!
Imagem de capa: Ilustração de RIL e +COMUNIDADE.
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