Curitiba
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Em dezembro de 2024, a capital do estado do Paraná, no Brasil, tinha 201.578 pessoas à espera de uma consulta ou exame especializado na rede pública municipal de saúde. Dez meses depois, em outubro de 2025, esse número havia caído para 123.090 pacientes: uma redução de 40%. O tempo médio de espera passou de 60 para 49 dias. Para efeito de comparação, no sistema público britânico (NHS) a espera média por uma primeira consulta com especialista é de cerca de 95 dias.
O resultado se apoia em uma política específica — o Programa Especialidades em Ação, lançado em abril de 2025 —, mas não se explica sem uma infraestrutura que a cidade vem construindo há muito mais tempo.
“Curitiba construiu, ao longo dos anos, uma trajetória consistente na área da saúde digital, que posiciona o município como referência nacional no Sistema Único de Saúde (SUS).A Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba foi pioneira em adotar soluções tecnológicas que ampliaram acesso, organizaram fluxos e qualificaram o cuidado”, afirma ao +COMUNIDAD a secretária municipal de Saúde de Curitiba, Tatiane Correa da Silva Filipak.

O programa que organizou a demanda
Especialidades em Ação faz parte de um pacote mais amplo. A Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba estruturou a iniciativa articulando quatro frentes: adesão aos programas federais Mais Acesso a Especialistas e Agora Tem Especialista, do Ministério da Saúde; ampliação da oferta entre prestadores contratados; inauguração do Centro Curitibano de Atenção Especializada em 2024, administrado pela Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas); e, sobretudo, a expansão da telerregulação de filas.
A telerregulação funciona da seguinte forma: o médico da unidade básica de saúde compartilha a situação clínica do paciente com um médico especialista telerregulador, que analisa o prontuário eletrônico e define se o caso pode ser resolvido na atenção primária ou se requer encaminhamento. A decisão é integralmente clínica e humana.
Com esse mecanismo, a Secretaria ampliou de 15 mil para 27 mil as consultas mensais nas cinco especialidades com maior demanda — oncologia, oftalmologia, otorrinolaringologia, ortopedia e cardiologia —, um crescimento de 80%. A oferta mensal de ultrassonografias, endoscopias e colonoscopias passou de 11.743 para 17.283: um aumento de 47%.
Dentro do balanço geral, alguns indicadores avançaram mais rapidamente que outros. A fila de ultrassonografia caiu 96%, a de oftalmologia 61,5% e a de tomografia de crânio foi zerada. Os tempos de agendamento evidenciam a mudança em casos concretos.
Maria Aparecida Duarte Vilela, pedagoga de 59 anos, conseguiu marcar um exame de ultrassonografia em 15 dias. “Não imaginava que sairia tão rápido”, declarou à imprensa oficial da Prefeitura de Curitiba. Hélio de Souza, aposentado de 70 anos operado de catarata em janeiro de 2025, esperava uma consulta de revisão apenas para o ano seguinte. Foi chamado em agosto: “Nem esperava ser chamado tão cedo”, afirmou.

O ecossistema digital que tornou a política possível
A telerregulação não é possível sem um prontuário eletrônico unificado e acessível. Curitiba o possui —o sistema e-Saúde— desde 1999.
Sobre essa base, a cidade construiu duas portas de entrada digitais que são parte central do Sistema Único de Saúde local (SUS). A primeira é o aplicativo Saúde Já Curitiba, que permite agendar consultas clínicas e odontológicas nas 109 unidades básicas de saúde, consultar o histórico do paciente, a carteira de vacinação, resultados de exames laboratoriais e confirmar consultas com especialistas. Hoje, o aplicativo supera 2 milhões de usuários.
A segunda é a Central Saúde Já, criada em 2020 durante a pandemia e transformada desde então em canal permanente.Em abril de 2023, Curitiba tornou-se a primeira cidade do Brasil a oferecer atendimento virtual para casos leves pelo SUS. A central acumulou 1,5 milhão de atendimentos até 11 de abril de 2025, com avaliação média de 4,5 na escala Likert (equivalente a 9 em 10). Desde o início das consultas por telefone ou vídeo, foram registrados 281.500 atendimentos médicos e 516 mil de enfermagem.
“Cuidar da saúde de uma cidade é, antes de tudo, cuidar das pessoas. É compreender que cada decisão tomada no âmbito da gestão pública impacta diretamente a vida de milhares de cidadãos. E não apenas no acesso aos serviços, mas também na qualidade de vida, dignidade e bem-estar”, afirma a secretária municipal de Saúde de Curitiba, Tatiane Correa da Silva Filipak.

O papel da inteligência artificial
Em diálogo com +COMUNIDAD, a gestora explica que a secretaria utiliza um agente de inteligência artificial para qualificar os encaminhamentos das unidades de saúde para a teleregulação. “O objetivo é auxiliar os profissionais da atenção primária a preencher a solicitação de telerregulação com todo o detalhamento necessário daquela especialidade”, explica.
Essa IA é utilizada durante a consulta médica, com o paciente presente, para que o profissional possa esclarecer dúvidas com o usuário sobre qualquer informação necessária para o encaminhamento. “A ferramenta foi desenvolvida para agilizar as solicitações de telerregulação e evitar retrabalho, porque cada vez que o médico especialista solicita informações extras que não estão no pedido original do médico da atenção primária, o processo não consegue avançar”, destaca Filipak.
A IA lê os fluxos e direciona o médico ajudando/melhorando o descritivo do encaminhamento. Desta forma o médico regulador consegue otimizar a análise e dar os direcionamentos corretos.
Em março de 2026, durante a Smart City Expo Curitiba, a Prefeitura apresentou o Curitiba App: um superaplicativo que integra, em um único ambiente digital, cerca de 800 serviços municipais, entre os quais o Saúde Já é um dos mais utilizados.
A principal novidade é uma inteligência artificial municipal própria, alimentada com bases de dados oficiais da cidade, que permite ao usuário fazer perguntas em linguagem natural e receber orientação para encontrar o serviço necessário.
O desenvolvimento está inserido na Lei Municipal de Inteligência Artificial (Lei 16.321/2024), sancionada por Curitiba em 2024, que estabelece princípios de transparência, privacidade, responsabilidade no uso e proteção de dados em toda aplicação de IA municipal.

Um ecossistema digital de cuidado
“A inovação ocupa um lugar central na trajetória da saúde em Curitiba. Inovar, para a saúde pública, significa incorporar novas tecnologias, melhorar processos de gestão, fortalecer a inteligência em saúde e desenvolver soluções capazes de responder de forma cada vez mais ágil, eficiente e humanizada às demandas da população”, reflete Correa da Silva Filipak. “Mais do que modernizar estruturas, inovar significa qualificar o cuidado e ampliar a capacidade do sistema de proteger e promover a vida”, acrescenta.
Os próximos passos do modelo de saúde de Curitiba apontam para o aprofundamento da transformação digital, maior integração dos pontos da rede e centralidade do cidadão nas decisões, com mais inteligência e tecnologia.
“O mais inovador neste momento é que estamos construindo um ecossistema digital de cuidado, de forma que todos os pontos de atenção à saúde tenham um braço da Saúde Digital, auxiliando os profissionais a agilizar e qualificar o atendimento”, destaca Tatiane Filipak ao +COMUNIDAD.
Financiamento, aprendizados e transferibilidade
Curitiba destina 19,52% de suas receitas correntes à saúde, acima do mínimo constitucional brasileiro de 15%. O orçamento previsto para 2025 alcançou R$ 3,34 bilhões (aproximadamente US$ 575 milhões ao câmbio do final de 2025). No mesmo ano, foram incorporados 628 novos profissionais à atenção primária e executados R$ 6,6 milhões (cerca de US$ 1,1 milhão) em 48 obras de infraestrutura de saúde.
Sobre as condições necessárias para que outra cidade latino-americana possa replicar ou adaptar esse modelo de redução de filas e saúde digital, Filipak é direta: “O ponto fundamental para qualquer município é contar com um prontuário eletrônico sistematizado, que concentre todas as informações dos usuários e ofereça ao gestor uma visão abrangente de todo o sistema de saúde, orientada às necessidades da população”.
“A incorporação de novas tecnologias na saúde pública de Curitiba é um processo contínuo de melhoria. Desde a implantação do primeiro prontuário eletrônico em 1999 até o estágio atual do Saúde Já Curitiba, houve avanços significativos em oferecer serviços de saúde ao alcance das mãos dos usuários do sistema público”, conclui a secretária.

Este artigo integra o Boletim Ideias & Inspiração da Rede de Inovação Local (RIL), que destaca mensalmente casos inovadores de diferentes temas em cidades de todo o mundo. Gostaria de receber, uma vez por mês, soluções locais como esta no seu e-mail? Você pode se inscrever gratuitamente.
Redação +COMUNIDAD
Imagem de capa: ilustração de RIL e +COMUNIDAD.
