Gestão Ambiental
Existe uma versão em espanhol deste artigo aqui.
Na gestão ambiental de muitos municípios, como Amargosa, localizada no estado da Bahia, o desafio não é a falta de informação, mas a sua organização. Nesta cidade de quase 40 mil habitantes, os dados sobre denúncias, fiscalizações, arborização urbana e a produção do viveiro municipal existiam, mas estavam desconectados.
Essa fragmentação obrigava o governo local a atuar de forma reativa diante das emergências cotidianas. Para romper esse ciclo, a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente desenvolveu o SEAMA Digital, uma plataforma que propõe reunir as informações da área em um mesmo ambiente digital.
“O SEAMA Digital não foi pensado apenas como um sistema para registrar atividades, mas como uma arquitetura de gestão ambiental, capaz de conectar o campo, o território, a fiscalização, o planejamento, a transparência e a tomada de decisões”, explica ao +COMUNIDAD Francelle Ferretti, secretária municipal de Meio Ambiente e Agricultura de Amargosa.

Uma arquitetura de gestão ambiental em quatro níveis
O funcionamento do SEAMA Digital está organizado em quatro camadas incrementais que transformam dados brutos em decisões de política pública:
- Coleta de dados em campo. As equipes municipais registram digitalmente atividades relacionadas às áreas verdes: inventário de árvores, ordens de serviço, fiscalizações e infrações ambientais, entre outras.
- Organização de bases de dados estruturadas. Cada registro é integrado a um histórico único que permite acompanhar reincidências, prazos, setores envolvidos e a evolução das demandas.
- Territorialização. Os dados coletados são visualizados em um mapa interativo para identificar as áreas com maior concentração de conflitos ambientais.
- Inteligência aplicada. O sistema gera indicadores de risco e alertas automáticos para priorizar as tarefas de manutenção.

Inteligência artificial a serviço da arborização urbana
A principal inovação da plataforma é a incorporação de assistentes virtuais baseados em inteligência artificial. Um deles é o Verde Bot, um assistente técnico especializado em arborização urbana que ajuda as equipes a calcular o risco de queda das árvores a partir de variáveis como espécie, localização e condição fitossanitária.
“Na prática, a equipe pode consultar o agente sobre o histórico de uma demanda, revisar informações de fiscalizações ou verificar registros de infrações ambientais. O agente de IA não substitui a análise técnica dos servidores públicos; ele funciona como uma camada de apoio sobre os dados da Secretaria”, esclarece a engenheira sanitária e ambiental.
Além disso, ela afirma que o objetivo é “reduzir o tempo dedicado à busca de informações em planilhas, documentos, mensagens e relatórios dispersos, facilitando o acesso à informação e melhorando a capacidade de resposta da gestão pública”. Dessa forma, a área amplia a transparência da gestão ambiental.

Os serviços mais comuns na gestão ambiental de Amargosa. Imagem: SEAMA Digital.
Desafios e limitações dessas inovações
A secretária Ferretti destaca que a gestão das áreas verdes e do viveiro municipal também deu um salto de qualidade, pois o sistema permite acompanhar com precisão a produção de mudas. Essas informações são disponibilizadas à população por meio de um painel público na internet, fortalecendo a prestação de contas.
O caminho rumo à digitalização não esteve livre de obstáculos. “O maior desafio não foi apenas tecnológico, mas também institucional. Criar um sistema é uma etapa; conseguir incorporá-lo à rotina da equipe é outra”, reflete a gestora. “Para que o SEAMA Digital funcione, os registros precisam ser realizados de forma contínua, padronizada e com qualidade. A tecnologia só gera inteligência quando os dados são inseridos corretamente”, adverte.
Nesse processo, ela conta que um dos primeiros desafios foi padronizar as informações e integrar áreas que, durante anos, funcionaram de forma isolada. Também ressalta que ainda existem limitações práticas, como a conectividade em campo, que nem sempre é ideal para a atualização das bases de dados.
Da reação à prevenção: os impactos no território
A implementação do SEAMA Digital transformou a dinâmica de trabalho da Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, ao permitir a passagem de um modelo de resposta a emergências para um planejamento baseado em dados.
Os impactos dessa tecnologia se consolidam em seis dimensões-chave:
- Maior organização das informações: unificação dos registros de viveiros, arborização, fiscalizações e infrações em um único ambiente digital.
- Visualização territorial: mapeamento de conflitos ambientais para identificar as áreas que demandam maior presença do Estado ou campanhas de educação ambiental.
- Priorização técnica em campo: classificação de riscos fitossanitários para organizar rotas de poda preventiva e evitar quedas de árvores.
- Controle do ciclo florestal: acompanhamento rigoroso da produção de mudas, irrigação, perdas e reflorestamento no viveiro municipal.
- Transparência ativa: acesso da população aos dados de gestão por meio do painel público, promovendo o controle social.
- Eficiência administrativa: redução do tempo de busca de informações graças ao suporte dos assistentes de inteligência artificial.
Aprendizados que outras cidades podem adotar
Apesar dos desafios e limitações apresentados pela solução, Ferretti afirma que o mais importante já começou: a mudança de método. A Secretaria está aprendendo a trabalhar com dados, mapas, registros padronizados, indicadores, um painel público e o apoio da inteligência artificial para melhorar sua gestão ambiental.
A experiência de Amargosa deixa lições valiosas para outros municípios que desejam aprimorar e modernizar sua gestão ambiental. “O principal aprendizado é que a transformação digital nessa área deve ser pensada como uma arquitetura, e não como uma ferramenta isolada”, destaca a gestora. E conclui: “Não adianta ter um sistema para o viveiro, outro para a fiscalização, outro para as árvores e outro para as denúncias, se essas informações não dialogam entre si. O valor está na conexão entre as camadas”.
Para outros municípios, as lições apontadas por Ferretti são:
- A tecnologia deve responder a um problema público concreto, e não o contrário.
- A transformação digital deve ser pensada como uma arquitetura integrada.
- A inteligência artificial é um suporte técnico, não um substituto do critério humano.
- Municípios pequenos e médios têm capacidade de construir inteligência pública aplicada.
Esta nota faz parte do Boletim Ideias & Inspiração da Rede de Inovação Local (RIL), no qual, a cada mês, são destacados casos inovadores de diferentes temas em cidades de todo o mundo. Gostaria de receber, uma vez por mês, soluções locais como as apresentadas nesta reportagem diretamente no seu e-mail? Você pode se inscrever gratuitamente!
Redação +COMUNIDAD
Imagem de capa: ilustração da RIL e da +COMUNIDAD.
