IDEIAS & INSPIRAÇÃO
Sandbox.Rio: da caixa de areia a políticas públicas com impacto econômico

Em 2024, contamos como o Rio de Janeiro implementou uma inovação regulatória para testar drones, robôs e carros elétricos em plena cidade. Quase dois anos depois, esses “experimentos” começaram a se transformar em normas, em infraestrutura e até em uma ferramenta para levar a inovação às favelas. A história de como uma autorização temporária se converte em desenvolvimento econômico.

Existe uma versão em espanhol deste artigo aqui.

Em agosto de 2024, o +COMUNIDAD publicou pela primeira vez um especial sobre sandboxes regulatórios: aqueles ambientes em que um governo permite testar, por um tempo e sob supervisão, inovações que nenhuma norma ainda contempla. Entre os casos em destaque estava o do Rio de Janeiro, a primeira capital brasileira a montar um a escala municipal.

Naquele momento, o Sandbox.Rio era sobretudo uma promessa com bons primeiros resultados. A equipe nos contava que a cidade já abrigava estações de recarga para carros elétricos, robôs de entrega circulando pelas calçadas, drones distribuindo bebidas e até os primeiros passos de um carro voador. Tudo isso acontecia sem que o Rio tivesse que reescrever sua normativa de antemão.

Quase dois anos depois, voltamos a bater à porta. A pergunta principal era o que havia acontecido com tudo aquilo: ficou em experimento ou se transformou em algo mais? E, sobretudo, uma pergunta que organiza esta edição do Boletim Ideias & Inspiração: como se traduz um “laboratório regulatório” em desenvolvimento econômico concreto para uma cidade?

As respostas foram dadas, como naquela ocasião, por Carina de Castro Quirino. Ela é a subsecretária de Regulação e Ambiente de Negócios da Prefeitura do Rio (SUBRAN), cuja área conduz o programa. E deixam ver uma mudança de etapa: o sandbox deixou de ser uma vitrine de pilotos para começar a produzir aquilo que mais custa a qualquer governo gerar diante da inovação: normas com base em evidência.

Sandbox.Rio
Drones de entrega, um dos primeiros testes realizados com o Sandbox.Rio. Imagem: Sandbox.Rio.

Uma caixa de areia, para quem chega pela primeira vez

A metáfora que lhe dá nome vem do mundo do software. Quando uma pessoa dedicada à programação quer testar um código novo, não o libera direto no sistema: roda-o em um ambiente isolado, uma “caixa de areia”, onde pode falhar sem contaminar o resto. Em 2015, reguladores financeiros do Reino Unido tomaram a ideia emprestada para deixar que as fintechs testassem seus produtos em um espaço delimitado, sem exigir-lhes de entrada todas as regras pensadas para os bancos.

Um sandbox regulatório é isso: uma autorização delimitada no tempo, no território e em seu alcance, para testar algo novo na vida real. Não suspende os controles de segurança nem as proteções ao cidadão. Suspende, de forma temporária, normas menores que bloqueiam uma inovação que ainda ninguém regulou. O que o Rio mudou foi a escala. Uma coisa é um sandbox financeiro, com dois reguladores e um punhado de empresas. Outra muito distinta é uma cidade inteira, com ruas, vizinhos, trânsito e comércios.

O Rio criou seu programa em 2022 por meio do Decreto Municipal 50.697. Qualquer empresa, startup ou instituto de pesquisa pode apresentar um projeto. Se a inovação não se encaixa na normativa vigente, o município a avalia e, se tiver mérito, lhe outorga uma autorização temporária para operar com usuários reais e sob monitoramento. Ao fechar o ciclo, a Prefeitura produz um relatório técnico. E aí começa o interessante.

Sandbox.Rio
Patinetes elétricos compartilhados estacionados em uma estação fixa no Rio. Imagem: Rio Scooter / Whoosh Project.

Do experimento à norma: o caso das patinetes

Se há um aprendizado que a equipe de Quirino resgata destes quase quatro anos, é que “uma regulação eficaz precisa de evidência, não de antecipação”.

A subsecretária o apresenta como uma inversão da lógica habitual do Estado. “O poder público costuma regular novas tecnologias a partir de projeções e suposições”, explica. O sandbox propõe o caminho oposto: primeiro se testa em escala real, depois se regula a partir dos dados.

O caso que melhor completa essa trajetória é o do Projeto Patinete Rio, da empresa Whoosh. Ao longo de 19 meses de operação experimental, a Prefeitura mediu de forma contínua padrões de uso, perfil de usuários e impactos na mobilidade e no ambiente. Ao fechar o ciclo, os números eram contundentes: 2,9 milhões de viagens, 972 mil usuários ativos e cerca de 230 empregos diretos e indiretos gerados.

Esse volume de dados foi decisivo para dois movimentos que tiveram que ocorrer em paralelo. Por um lado, a articulação com as áreas municipais, que passaram a conhecer os riscos reais —e não hipotéticos— das patinetes no espaço urbano. Por outro, o respaldo político para avançar rumo a uma regulação permanente. O resultado foi o Decreto Municipal 57.657, de 9 de março de 2026, que regula de forma definitiva as patinetes elétricas compartilhadas na cidade, após um processo que incluiu consulta pública, relatórios de monitoramento e diálogo com os órgãos envolvidos.

A lição que Quirino deixa é direta: sem o sandbox, o debate regulatório teria travado em intuições e em comparações com outras cidades, sem prática própria. Com ele, discutiu-se sobre evidência recolhida em um ambiente controlado. “Dados que não deixavam margem para questionar a relevância do serviço para a cidade”, resume.

O que se regula e o que não: o mecanismo por trás

O caso das patinetes é o produto de um método. Ao final de cada ciclo, de cerca de doze meses, o Sandbox.Rio produz um relatório técnico consolidado que orienta a decisão entre três caminhos possíveis: regulação definitiva, continuidade experimental ou encerramento ordenado do projeto.

As patinetes já percorreram esse caminho completo. Outros estão em pleno trajeto. O mais avançado é o Eletroposto Carioca, a primeira estação de recarga de veículos elétricos do país, inaugurada em fevereiro de 2025 na Barra da Tijuca. Em seu primeiro ano registrou 21.179 sessões de recarga, consumiu 522.373 kWh e evitou 406 toneladas de dióxido de carbono.

Esses dados, segundo a Prefeitura, já estão orientando uma decisão de política pública mais ampla. O Rio é a terceira cidade do Brasil em número de veículos elétricos emplacados, e a demanda cresce mais rápido que a oferta de infraestrutura: a frota eletrificada brasileira aumentou 28% somente no primeiro semestre de 2025, e as vendas cresceram 65,5% nos dois primeiros meses de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior. O país tinha cerca de 21 mil estações de recarga em fevereiro de 2026, mas os condutores seguem apontando a falta de infraestrutura como o principal gargalo da eletromobilidade.

Por isso a cidade avança no desenho de um Plano Municipal de Eletromobilidade, que prevê somar 15 novas estações públicas de recarga até 2028. O sandbox foi o instrumento que permitiu acumular dados reais sobre demanda, perfis de uso, localização estratégica e viabilidade econômica. Dados que agora sustentam esse plano. Nas palavras de Quirino, “o programa não existe apenas para liberar inovação, mas para produzir o conhecimento que permite ao Estado agir com precisão”.

Bicicleta movida a água recolhendo resíduos na Lagoa Rodrigo de Freitas. Imagem: Projeto Biclean.

A inovação também para as periferias

Em todo o caminho houve, contudo, um ponto sensível que a própria equipe detectou. Os dois primeiros ciclos haviam dado resultados sólidos, mas concentrados em zonas com melhor acesso à infraestrutura urbana: a Zona Sul e a Barra da Tijuca. A inovação chegava onde já existia, de certo modo, e não onde mais fazia falta.

O terceiro ciclo, lançado em agosto de 2025, buscou corrigir esse viés. Pela primeira vez, os projetos voltados a comunidades cariocas e a áreas fora desse eixo recebem até dez pontos adicionais na seleção. A mudança se notou: 58 projetos inscritos, segundo a Prefeitura, um recorde para um sandbox municipal no Brasil, com participação inédita de iniciativas pensadas para territórios periféricos e um júri integrado por instituições como a Firjan e a UFRJ.

Entre os dez projetos do ciclo, dois mostram com clareza essa virada. Um é o Biclean, uma bicicleta aquática que se testa na Lagoa Rodrigo de Freitas como veículo de recreação e turismo sustentável, com a particularidade de recolher resíduos enquanto circula. O outro, de maior alcance social, é um CEP Digital —um sistema de endereços digitais— para as comunidades da Mangueira e do Caju, desenvolvido pela logtech de impacto social naPorta junto à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e à Secretaria Municipal de Saúde.

A ideia é simples, mas nem por isso menos poderosa. Em territórios onde o sistema postal tradicional não funciona, criam-se endereços digitais precisos para cada moradia. Isso permite, por exemplo, que os agentes comunitários de saúde localizem os moradores com exatidão, melhora o acompanhamento de pacientes, a cobertura de vacinação e a eficácia dos programas de atenção básica.A tecnologia de endereços digitais já vinha sendo aplicada em favelas cariocas desde o fim de 2024; o que o sandbox aporta é articulá-la com os serviços públicos de saúde do município. É o tipo de resultado, assinala Quirino, que converte o programa em um instrumento de redução da desigualdade urbana, e não apenas de fomento ao empreendedorismo.

A Biclean, uma bicicleta aquática que está sendo testada na Lagoa Rodrigo de Freitas como veículo para recreação e turismo sustentável, tem a característica única de coletar resíduos enquanto se move. Imagem: 10viajes.com

Limites e diálogo com outros níveis do Estado

A experiência carioca também deixa ver onde estão as tensões. Um sandbox municipal só pode mexer em normas municipais, e os limites aparecem quando uma inovação toca competências de outros níveis do Estado. A própria equipe reconhece: pode dialogar com reguladores federais, como a agência de aviação que intervém no caso dos drones ou dos eVTOL, mas não modificar suas regras.

Esse atrito de competências ficou visível em abril de 2026, quando a Prefeitura publicou um decreto mais amplo —distinto do das patinetes compartilhadas— para ordenar a circulação de toda a micromobilidade elétrica na cidade. O Ministério Público do Estado do Rio questionou parte dessa norma e pediu sua suspensão, ao considerar que o município não pode modificar classificações de veículos já definidas pela legislação federal de trânsito.

O decreto afetado, o número 57.823, não tem relação com o programa Sandbox.Rio (o decreto dos patinetes compartilhados é o número 57.657 e segue em vigor). O episódio, ainda em aberto, ilustra um aprendizado que vai além do Rio: experimentar no âmbito local é possível e fértil, mas transformar esses aprendizados em uma regulação duradoura exige coordenação com os demais níveis do Estado.

O que outra cidade da região pode aprender

Para os governos locais que leem este Boletim, a pergunta prática é se tudo isso pode ser replicado. A recomendação de Quirino é não esperar ter o modelo perfeito. “O maior erro que uma cidade pode cometer é achar que precisa regular o futuro antes de entendê-lo”, afirma.

O programa carioca, lembra, não demandou recursos do erário nem uma estrutura complexa: precisou de vontade política, um instrumento jurídico claro e uma equipe disposta a aprender junto com as empresas. Apoia-se, além disso, em uma base normativa nacional —o Marco Legal das Startups, a lei complementar 182 de 2021— que habilita expressamente estados e municípios a criar esses ambientes de teste.

Na região, cidades como Porto Alegre, Goiânia, Maceió, Criciúma, Teresópolis e Volta Redonda, além do estado de São Paulo, já montaram seus próprios sandboxes. Na Argentina, a Cidade de Buenos Aires conta com uma lei desde 2021, e municípios como Escobar começaram a trilhar caminhos regulatórios semelhantes, inspirados em parte pela experiência do Rio.

O decreto que deu origem ao Sandbox.Rio está disponível como modelo adaptável para qualquer município que queira começar. Porque o problema que resolve, diz Quirino, é universal: “Se a sua cidade enfrenta tecnologias que chegam mais rápido que a capacidade de regulá-las —e todas enfrentam— o sandbox não é uma opção sofisticada reservada às grandes metrópoles. É a resposta prática a um problema comum”.

Quase dois anos depois daquela primeira matéria, a caixa de areia do Rio demonstrou algo que vai além dos drones e dos carros voadores que a tornaram famosa: que uma autorização temporária, bem desenhada, pode se converter em infraestrutura, em emprego, em serviços de saúde que chegam a uma favela. E, sobretudo, em uma forma distinta de o Estado se relacionar com aquilo que ainda não sabe regular.

Contato com Sandbox.Rio: https://www.sandboxrio.com.br/

Esta matéria faz parte do Boletim Ideias & Inspiração da Rede de Inovação Local (RIL), no qual a cada mês se destacam casos inovadores de diferentes temáticas em cidades de todo o mundo. Gostaria de receber, uma vez por mês, soluções locais como as desta matéria no seu e-mail? Você pode se inscrever gratuitamente!

Redação +COMUNIDAD

Imagem de capa: ilustração de RIL e +COMUNIDAD.